"..., espero que a viagem termine com uma aventura envolvendo um cachorro de rua, um avô de alguém, uma viagem de balão e um amor de infância não correspondido (Maria Joaquina?)"
De volta a São Paulo, vindo do Abril Pro Rock em Recife. Acima, minhas expectativas pré-viagem. Não rolou exatamente o final da novela "Vovô e Eu", mas foi uma pusta viagem legal e extremamente produtiva e, espero, frutifica (sem bagaço, de preferência)
Eu havia prometido um diário com os detalhes mais sórdidos, mas resolvi deixar isso para a imaginação dos leitores, as revistas adolescentes e os tablóides (como o "Cuma?").
Em todo caso segue um resumo.
09/04/08 - Minha camisa estava um pouco suja do crepe com quem eu lutei no Aeroporto de Guarulhos (eu uso aparelho e não tinham talheres), mas logo cheguei a Recife após 3 horas de ininterrupto sono movido ao velho Stilnox, a caipirinha mais cara que já tomei na vida e o Mighty Joe Moon do Grant Lee Buffalo nos fones. Cheguei ao hotel por volta das 17h e quinze minutos depois segui para o Shopping Recife procurando algum lugar onde eu pudesse imprimir cópias da capa do nosso novo álbum (o EP Best Seller Sellers), que havia ficado pronta na madrugada anterior. Enquanto aguardo a impressão penso em voz muda se os locais (que por aqui tem fama de machões), estariam achando meu tênis laranja muito gay. Capas impressas e nenhum julgamento aparente, volto ao hotel a pé ouvindo a mixagem final do álbum, que também havia ficado pronto na madrugada anterior. Finalmente fiquei satisfeito com o resultado, o que deve ser um mau sinal. Após um banho merecido ligo para meu antigo colega de faculdade e amigo Fábio atual morador de Recife (quem eu não via há cinco anos), e vamos a um bar/restaurante chamado “Bar do Bode”. Bebemos consideravelmente bastante em quatro pessoas e a conta não passou dos R$60, fato inédito para os padrões de São Paulo, além de curiosamente eu não ter terminado a noite vomitando na Consolação. Nunca tinha tomado “Caldo de Camarão” e devo dizer que foi o melhor acompanhamento para cerveja que eu já provei. Mais tarde o melhor acompanhamento passou a ser uma garrafa de água e pouco mais tarde a cama, ao som de Fuzzy do Grant Lee Buffalo nos fones.
10/04/08 – Acordei de cuecas no frio sem saber onde estava. Ah, sim, Recife. Uma janela e o ar-condicionado compõem a fina linha que me separa do calor sadista. E-mails depois sigo ao encontro do Fábio e de sua amiga Lilinha, que me havia conseguido ingressos de cortesia para o APR. Fomos a um restaurante muito gostoso que eles escolheram e chego a conclusão de que se eu me mudasse para Recife eu seria um obeso irrecuperável. A Lilinha é impressionante. Assessora de imprensa/jornalista/radialista/modelo/professora de inglês e provável insone. Naquela tarde me levaram para conhecer alguns lugares muito legais, entre eles Recife Antigo. De noite e-mails para o Fabito (o web designer do site da banda) e encomendo com pressa desesperadora imagens para o conteúdo multimídia do CD. Cada imagem serviria de fundo para uma letra do EP. Não há tempo suficiente para viajar a fundo em conceitos e referências e acabo pegando no sono. Acordo às 3h30 da manhã e assisto “A Vida é Bela” enquanto tento pensar alguma coisa para o release, que seria incluído no conteúdo multimídia. Antes do Roberto Begnini levar o tiro eu já estava no restaurante do hotel escrevendo em minha uma agenda um brainstorm que mais parecia uma diarréia dadaísta e lá pelas 8h da manhã terminei o release e o café da manhã (mais americano do que pernambucano) E-mails e cigarros depois volto ao sono (bastante sexual, aliás, o que deve ter comprometido meu descanso)
11/04/08 – Primeira Noite de Abril Pro Rock
Acordo agitado (nenhum travesseiro ferido), exatamente no pique que eu precisava. Telefonemas para SP e seleciono as fotos da banda que entrariam no CD com as letras e o release. Seria menos trabalhoso se tivesse levado as fotos comigo e não tivesse que ficar baixando do nosso Flickr numa conexão de telefone de lata e linha. Só me interrompe uma dor de barriga, que acaba servindo para a conclusão da leitura do O Gato Por Dentro, do William Burroughs. Recebo do Fabito as imagens com as letras no final da tarde e começo a gravar os CDs enquanto dou umas folheadas em Josephine The Singer - or The Mouse People, do Kafka. Uau, aquilo sim é senso de humor afiado. Quem acha que o Oscar Wilde escrevia usando uma agulha deveria dar uma chance ao Kafka. Após gravar os CDs começo a carregar os pen drives.
A idéia com os pen drives era distribuí-los entre figuras que estariam no Abril Pro Rock que poderiam vir a ser bom contato para a banda. A intenção não era das mais maquiavélicas, nada no estilo Maria Rita de promoção (onde os jornalistas ganharam IPods como material de divulgação), mas sim apresentar nosso trabalho de uma forma diferente e que cabe em qualquer bolso, o que é essencial nestes festivais. Afinal o cara que vai receber esse material não vai vestindo uma calça de palhaço cheia de bolsos. Cada pen drive continha basicamente o mesmo que o conteúdo multimídia do CD, ou seja: capa, release, letras em jpeg (todas com alguma imagem de fundo), cerca de 40 fotos da banda incluindo flyers antigos e capas dos outros CDs, e arquivos das oito músicas novas em três formatos: wav, mp3 de 128 kbps e mp3 de 320 kbps. Ao chegar em Olinda onde seria o festival, uma notícia ruim: minha mais nova amiga estava num hospital passando mal.
Achei meio broxante estar sozinho em um festival. Ironicamente já não gosto de shows grandes e sempre me arrependo depois por ter problemas com volume e multidão. Mas enfim, a intenção desta viagem não era assistir a shows e vencido pela timidez e o calor fui embora na mesma hora rumo a Recife Antigo para tomar uma cerveja antes de dormir e repensar meus planos. O mesmo lugar onde eu estive na tarde do dia anterior era completamente outro. Ruas cheias de gente, mesas e cadeiras. Fui animado pelo clima e pela paisagem e logo voltei à ânsia de conhecer gente e fazer contatos. Resumindo a noite fiquei bebendo e conversando com algumas meninas que conheci por lá, consegui uma casa para tocar quando voltar com a banda e voltei para o hotel mais confiante e com alguns CDs Best Seller Sellers a menos. “Room Service...” “Oi, bom dia. Vou querer uma mini-pizza, uma salada e aquele molho de peixes, por favor”. Peguei no sono antes da comida chegar e acabei me forçando a comer pelo menos a salada e o molho, uma vez que a pizza cheirava plástico queimado.
12/04/08 – Segunda Noite de Abril Pro Rock
Acordei com uma laranja entalada na garganta. Pelo menos essa era a sensação. Como passei a noite anterior num bar praticamente gritando na mesa por minha conversa estar competindo com uma banda que tocava alto demais, eu estava quase mudo. Acendo um cigarro por via das dúvidas. Soube que minha nova amiga já estava melhor e fiquei mais tranqüilo. Saí atrás de lembranças para a família e questionando se deveria ir no Abril Pro Rock naquela noite.
Mais tarde resolvi aparecer por lá, sem grandes expectativas mas devidamente munido de material. Certa hora após ficar circulando de um fumódromo para outro vejo ao meu lado o Gabriel do Autoramas empolgado numa conversa. Espero uma brecha, me apresento e foi para ele o primeiro pen drive da viagem, após me ouvir gaguejar alguma coisa sobre Hello Dali, Salvador Dali e “eu estava ali...”. A noite instantaneamente me pareceu mais atraente e bateu um sentimento adolescente de vitória de quando se tem quinze anos e consegue avançar algum sinal com uma garota. Saí confiante, conheci um cara muito legal chamado Gustavo Almeida, coordenador de um curso universitário de Olinda extremamente interessante sobre produção fonográfica e após nossa conversa começam a pipocar na minha frente alvos da ABRAFIN. Mais alguns pen drives plantados e dou de cara com o Valter do Loaded E-Zine.
O Loaded é uma web-radio bastante militante que sempre apoiou a banda desde o começo em 2005, e na mesma hora em que o encontrei parecia que estava em SP tomando uma cerveja e conversando sobre música com um camarada. Ele me apresentou para tanta gente que o meu resto de material promocional acabou em menos de dois minutos, o que me leva a afirmar que esses caras não brincam quando levantam a bandeira da música independente e esse apoio que ele deu a troco de nada com certeza não será esquecido.
Acabamos nos perdendo e me permito uma pausa para fumar e pensar um pouco. A fumaça segue o cara sentado ao meu lado e ao acompanhar seu trajeto cancerígeno na breve brisa percebo que o cara ao meu lado é o Lúcio Ribeiro da Folha de SP. Olho novamente para a minha sacola cheia de folhetos, já sem pen drive e sem CD e silenciosamente amaldiçôo meu amadorismo como divulgador. Começo a conversar com o Lúcio e para minha surpresa ele pessoalmente é o mesmo cara legal da coluna (eu certamente não pareço o mesmo cara que escreve esse blog, logo suponho que todos sejam assim) Ele se ofereceu para me apresentar para mais pessoas e eu acho que dei alguma resposta que saiu esquisita, resultado da mistura de estar falando com o cara ao vivo e da raiva de ter a sacola vazia. É como alguém te oferecer dinheiro e você pensar: puxa, minha carteira está furada... Fiquei muito contente com sua demonstração de disposição e incentivo e mais tarde fiquei bastante satisfeito por termos tido uma conversa legal sobre variados assuntos. Fui embora antes do Lobão, infelizmente, mas felizmente após ter ouvido o show do pianista Vitor Araújo, uma ótima escolha da organização. Vou de encontro ao meu amigo Fábio num bar chamado “Boteco”, perco meu celular no táxi, recupero meu celular e pelo resto da madrugada em ótima companhia muitas cervejas e histórias na minha última noite em Recife.
13/04/08 - Apenas uma dica. Não aconselho ninguém a tomar Stilnox e ler “A Metamorfose” do Kafka antes de pegar no sono dentro de um avião. Sem perceber dei um golpe na poltrona da frente enquanto sonhava que tentava ajudar um homem/inseto a despencar de uma prateleira. Desembarque em Guarulhos, missão cumprida. Nos vemos na Virada Cultural.
Links legais (com alguma ligação a esse texto):
-ABRAFIN
-Loaded E-Zine
-Lúcio Ribeiro
-Universidade Barros Melo (Olinda)
-Vitor Araújo (vídeo)
-Virada Cultural